RELAÇÃO DIFÍCIL ENTRE BRASIL E ISRAEL PROVOCA REAÇÕES
RELAÇÃO DIFÍCIL ENTRE BRASIL E ISRAEL PROVOCA REAÇÕES
As relações diplomáticas entre Brasil e Israel entraram em rota de colisão depois que o governo brasileiro chamou o embaixador em Tel Aviv de volta ao Brasil para consultas. Em nota, o Itamaraty classificou como "inaceitável" o aumento na escala de violência em Gaza. "O gesto que tinha que ser feito foi feito", afirmou Figueiredo. Após o Brasil convocar o embaixador de volta ao País, o governo israelense afirmou, em nota, que a atitude brasileira "não contribui para encorajar a calma e a estabilidade na região". O porta-voz Yigal Palmor disse que a decisão brasileira "não reflete o nível de relação entre os países e ignora o direito de Israel defender-se".
Troca de cartas
Ainda na sexta (25), o empresário Israel Klabin divulgou carta por ele endereçada ao ministro Luiz Alberto Figueiredo. Nessa correspondência, Klabin lembra sua velha amizade com o chanceler brasileiro: "Sempre tive, bem como a minha família, íntima relação com o Itamaraty através de dois chanceleres: Horácio Lafer e Celso Lafer, ambos judeus, que honraram não apenas o nome da família, mas o Brasil e sua política externa. Não preciso lembrá-lo também da importância de Oswaldo Aranha, quando embaixador junto à ONU, na criação do Estado de Israel, trazendo com isso o agradecimento de todos os judeus do mundo". Segue Israel Klabin expondo sua estranheza "com a séria ofensa feita ao Estado de Israel e a todos nós judeus, pelo Itamaraty, quando chamou o embaixador para consulta".
Diz o empresário carioca que, "tanto meus pais quanto eu, fazemos parte das gerações que atravessaram o holocausto e herdaram a missão de prestar serviços à humanidade e aos países que agasalharam os judeus na fuga milenar das perseguições oriundas de preconceitos, de ódios raciais e religiosos". "A nota do Itamaraty demonstra claramente um retrocesso da política fracassada de levar o Brasil para um envolvimento errado e desnecessário, antagônico ao princípio de não intervenção, o que tem sido um dos pilares da política externa brasileira através dos tempos."
Preconceito
A correspondência segue nesse tom. "A análise preconceituosa do que realmente está acontecendo no conflito em Gaza, seguramente levou o Itamaraty a conclusões apressadas e equivocadas. Israel se defende de ataques de grupos terroristas, do Hamas associado ao Hezbollah, ao Irã e de tudo aquilo que é mais odiento na evolução política do Oriente Médio. Estranho o Brasil omitir-se em relação a esses grupos que tentam, pelo terror, "jogar os judeus ao mar". Isto seguramente não acontecerá".
A resposta
O ministro Luiz Figueiredo respondeu à carta de Klabin, lamentando ter causado ofensa. Diz o chanceler que, em nota, o Itamaraty condenou tanto os ataques de foguetes pelo Hamas contra Israel, quanto o ataque "desproporcional" israelense a Gaza, "mantendo nossa postura de equilíbrio e reclamando o cessar-fogo imediato e a solução de dois Estados, Israel e Palestina, vivendo em paz e segurança. Segue a resposta, assinalando que "a nova nota, datada de ontem, se prende à tragédia humanitária da morte de crianças, mulheres e idosos, em grande número, como consequência da luta". O ministro lembra que deu várias declarações em que ressaltou e reiterou a condenação brasileira aos ataques do Hamas e a defesa do direito de autodefesa de Israel.
Figueiredo explica que, "apesar de declarações destemperadas de um porta-voz israelense, optei por não polemizar, dizendo que povos e países amigos podem discordar eventualmente, e que isso deve ser feito sempre de maneira respeitosa".
"Ressaltei que a amizade e as relações com Israel devem ser preservadas. Você me conhece e sabe que não sou dado a radicalismos. Nem teria por que fazê-lo com relação a Israel. O Brasil é um belo exemplo de como as comunidades de origem judaica e árabe convivem em paz e harmonia. Acho apenas que criticar as ações de um governo não quer dizer criticar um país ou um povo. Não aceito que essas coisas se confundam. Tenho muitos amigos de origem judaica que são críticos do atual governo israelense, e em termos muito duros. Nem por isso suas críticas são consideradas ofensas", acrescentou o ministro.
E termina pedindo ao amigo "que também aceite as explicações que dou. Muito longe de mim ofender amigos tão queridos como meus amigos judeus. Muito menos, ofender uma pessoa como você. Mas quero ter o direito de discordar respeitosamente do governo israelense, quando for o caso, sem que isso seja lido como uma ofensa a todo um povo".
O anão diplomático
O ministro Luiz Alberto Figueiredo reagiu às críticas do porta-voz da chancelaria de Israel que classificara o Brasil como um "anão diplomático". Em São Paulo, Figueiredo afirmou que o país fez o "gesto que tinha que ser feito" e que o Brasil "não está contente com a morte de mulheres e crianças" na Faixa de Gaza.
Fonte: Diário do Comércio e Indústria